A Meta, gigante da tecnologia que controla o Facebook e o Instagram, iniciou sua defesa formal em um tribunal federal na Califórnia, negando veementemente que suas plataformas tenham sido projetadas para viciar crianças e adolescentes. O julgamento, que deve durar cerca de seis semanas, é o ápice de uma série de processos movidos por procuradores-gerais de diversos estados norte-americanos. A acusação sustenta que a empresa priorizou o engajamento e o lucro em detrimento da saúde mental dos usuários mais jovens, utilizando algoritmos e recursos de design para manter menores de idade conectados pelo maior tempo possível.
Durante as audiências iniciais, os advogados da Meta argumentaram que a empresa investe continuamente em ferramentas de segurança e bem-estar. Segundo a defesa, a ideia de que o Instagram e o Facebook operam como “drogas digitais” é uma distorção da realidade tecnológica. A empresa afirma que o objetivo de suas funcionalidades é conectar pessoas e que o tempo de tela excessivo é uma questão complexa que envolve múltiplos fatores sociais e familiares, não apenas o design do aplicativo.
O processo é fundamentado em grande parte nos chamados “Facebook Files”, documentos internos vazados que sugerem que a Meta tinha conhecimento dos efeitos prejudiciais de suas redes na autoimagem de adolescentes. De acordo com informações do UOL, a ação pode representar uma ameaça financeira sem precedentes, com pedidos de penalidades que chegam a cifras bilionárias, refletindo a gravidade das acusações de negligência.
Testemunhos e Documentos Internos
Um dos pontos centrais da acusação é o depoimento de Arturo Béjar, ex-engenheiro de segurança da Meta. Béjar, que se tornou uma testemunha-chave, alega que a alta cúpula da empresa, incluindo Mark Zuckerberg, foi alertada repetidamente sobre falhas de segurança que expunham menores a conteúdos inadequados e comportamentos compulsivos. Ele afirma que, em muitos casos, o lançamento de novos produtos, como o Reels, ocorreu sem a devida avaliação dos riscos para o público infantil.
A acusação tenta demonstrar que a busca incessante por crescimento levou a Meta a ignorar seus próprios protocolos de segurança. Conforme reportado pela Veja, o modelo de negócios das redes sociais depende da retenção do usuário para a coleta de dados e exibição de publicidade, o que criaria um conflito de interesses intrínseco entre a lucratividade da empresa e a proteção da saúde mental dos jovens.
Mark Zuckerberg, CEO da Meta, é esperado para depor e deve enfrentar questionamentos sobre declarações anteriores feitas ao Congresso dos Estados Unidos. Em audiências passadas, Zuckerberg afirmou que a Meta não permite usuários menores de 13 anos, mas documentos internos apresentados pela acusação sugerem que a empresa possui dados sobre milhões de crianças abaixo dessa faixa etária que utilizam ativamente o Instagram, muitas vezes com o conhecimento tácito da plataforma.
A questão da verificação de idade é um dos pilares mais frágeis da defesa. E-mails internos de executivos, como Nick Clegg, indicam discussões sobre a dificuldade de aplicar limites de idade de forma eficaz. Segundo a Agência Brasil, Zuckerberg foi confrontado com evidências de que o público infantil é, na verdade, um segmento estratégico para a longevidade das plataformas, apesar das negativas públicas da empresa.
Impacto na Saúde Mental e Futuro Regulatório
Além do vício comportamental, o tribunal analisa o impacto das redes sociais em transtornos alimentares, depressão e ansiedade. A acusação cita o “Projeto Mercúrio”, uma pesquisa interna da própria Meta que teria indicado que usuários que pausaram o uso do Facebook relataram melhoras significativas no bem-estar. A alegação é que a empresa interrompeu o estudo e não divulgou os resultados para evitar danos à sua imagem pública e ao valor de suas ações.
A Meta rebate essas críticas citando a implementação de mais de 30 ferramentas de supervisão parental e limites de tempo de uso. A empresa sustenta que a ciência sobre o impacto das redes sociais na saúde mental ainda é inconclusiva e que muitos estudos independentes não conseguem estabelecer uma relação de causalidade direta entre o uso dos aplicativos e o desenvolvimento de patologias psicológicas graves.
O desfecho deste julgamento terá repercussões globais, servindo como precedente para regulamentações em outros países, inclusive no Brasil. O movimento judicial nos EUA ocorre em um momento de crescente pressão para que as Big Techs assumam responsabilidade editorial e civil pelos danos causados por seus algoritmos, especialmente quando o público-alvo é composto por indivíduos em fase de desenvolvimento neuropsicológico.
Enquanto o julgamento prossegue, outras plataformas como TikTok e Snap optaram por acordos judiciais em casos semelhantes, deixando a Meta em uma posição de isolamento combativo no tribunal. A estratégia da empresa de levar o caso até o fim demonstra uma tentativa de proteger seu núcleo tecnológico e evitar mudanças estruturais profundas que poderiam comprometer sua hegemonia no mercado de publicidade digital.
Por fim, a decisão final caberá à juíza Yvonne Gonzalez Rogers, que determinará se a Meta agiu com má-fé ao ocultar riscos conhecidos. Independentemente do veredito financeiro, o processo já alterou a percepção pública sobre a ética das redes sociais, forçando um debate necessário sobre os limites da tecnologia na vida das novas gerações e a necessidade de uma internet mais segura e menos predatória.







