O mercado de commodities testemunhou uma valorização expressiva nesta quarta-feira (19), com o ouro atingindo seu patamar mais elevado desde junho. O contrato mais líquido do metal precioso, negociado na Comex, divisão de metais da New York Mercantile Exchange (Nymex), encerrou a sessão com um salto de 2,82%, cotado a US$ 4.545,30 por onça-troy. Esse movimento reflete uma mudança súbita no sentimento dos investidores, que voltaram a buscar proteção em ativos tangíveis diante de novas diretrizes da política fiscal norte-americana.
O principal catalisador para essa disparada foi o anúncio inesperado do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos sobre a ampliação de seu programa de recompra de títulos públicos, conhecidos como Treasuries. Segundo informações divulgadas pelo UOL Economia, o governo americano decidiu dobrar o volume das operações de recompra para papéis de longo prazo, especificamente aqueles com vencimento entre 10 e 30 anos.
A medida visa, primordialmente, injetar liquidez no mercado de renda fixa soberana, que vinha sofrendo com uma pressão vendedora persistente nas últimas semanas. Ao elevar o limite máximo de recompra de US$ 2 bilhões para pelo menos US$ 4 bilhões por operação, o Tesouro atua como um comprador de última instância, forçando a valorização dos preços dos títulos e, consequentemente, a queda de seus rendimentos (yields).
Como o ouro não oferece rendimentos periódicos, como juros ou dividendos, ele tende a se tornar mais atrativo quando as taxas de retorno dos títulos do governo caem. A correlação inversa entre os yields dos Treasuries e o preço do metal ficou evidente nesta sessão: assim que as taxas de 10 e 30 anos recuaram de seus picos plurianuais, o capital fluiu rapidamente para o ouro, consolidando sua posição como reserva de valor.
Além da queda dos juros, o enfraquecimento do dólar no cenário global deu suporte adicional à commodity. Como o ouro é precificado na moeda americana, um dólar mais fraco torna o metal mais barato para investidores que detêm outras divisas, estimulando a demanda internacional. Analistas do Valor Investe destacam que essa intervenção do governo dos EUA alterou o humor dos mercados globais, aliviando a percepção de risco imediato.
Impactos na Inflação e Estratégias de Investimento
Especialistas alertam, no entanto, para os efeitos colaterais dessa política. Peter Schiff, estrategista global da Euro Pacific Asset Management, observou que a recompra de títulos que o setor privado não deseja mais manter pode alimentar a inflação. Segundo Schiff, se o Federal Reserve (Fed) precisar criar moeda para financiar essas operações, o poder de compra do dólar será erodido, o que justifica a valorização de US$ 125 no preço do ouro em um único dia após a notícia.
O banco Citi também reforçou sua visão otimista para o metal dourado. Em nota aos clientes, a instituição apontou que o custo dessa estratégia de suporte aos títulos é uma moeda americana estruturalmente mais fraca. Diante desse cenário, o banco recomendou a adição de posições compradas em ouro, prevendo que os investidores continuarão a abandonar estratégias baseadas na valorização do dólar em favor de ativos de segurança.
No Brasil, o reflexo da decisão americana foi sentido na Bolsa de Valores e no câmbio. O InfoMoney reportou que o Ibovespa fechou em alta, impulsionado pela queda dos juros futuros nos EUA, o que reduz o custo do capital global e favorece mercados emergentes. O recuo do dólar frente ao real também foi uma consequência direta da menor atratividade dos juros americanos após a intervenção do Tesouro.
A prata acompanhou o movimento de alta do ouro, encerrando o dia com um avanço de 2,79%, cotada a US$ 65,825 por onça-troy. O setor de metais preciosos como um todo se beneficiou da percepção de que o governo dos EUA fará o necessário para evitar um colapso no mercado de dívida, mesmo que isso signifique tolerar uma inflação mais alta ou um dólar menos valorizado no curto prazo.
Olhando para o futuro, os investidores agora aguardam a divulgação da ata da última reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC). Embora o documento possa estar ligeiramente defasado em relação aos dados econômicos mais recentes, ele fornecerá pistas cruciais sobre como o Fed enxerga a trajetória dos juros e se haverá coordenação com o Tesouro para manter a estabilidade financeira nos próximos meses.
Em suma, a quarta-feira marcou um ponto de inflexão para o ouro em 2026. A combinação de intervenção estatal direta, queda nos rendimentos reais e temores inflacionários criou o cenário perfeito para que o metal retomasse níveis de preço que não eram vistos há meses, reafirmando sua relevância histórica em momentos de incerteza na maior economia do mundo.
A resiliência do ouro acima da marca de US$ 4.500 sugere que o suporte psicológico e técnico foi fortalecido. Caso a volatilidade nos títulos do Tesouro persista, analistas acreditam que novas máximas podem ser testadas antes do final do trimestre, especialmente se os dados de emprego e inflação nos EUA continuarem a mostrar sinais de desequilíbrio macroeconômico.







