O mercado global de metais preciosos registrou uma movimentação atípica nesta quarta-feira, com o contrato mais líquido do ouro disparando cerca de 3% e rompendo a barreira psicológica dos US$ 4.500 por onça-troy. O movimento, que levou o metal ao seu maior nível de fechamento desde junho, foi uma resposta direta a uma intervenção surpresa do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos no mercado de títulos públicos. Na Comex, divisão de metais da New York Mercantile Exchange (Nymex), o ouro para entrega em dezembro encerrou a sessão com alta de 2,82%, cotado a US$ 4.545,30 por onça-troy, consolidando uma das maiores valorizações diárias do ano.
A faísca para essa valorização foi o anúncio de que o governo americano irá dobrar o tamanho de suas operações de recompra de títulos de longo prazo (buybacks), focando especialmente em papéis com vencimentos entre 10 e 30 anos. Segundo informações publicadas pelo UOL, a decisão visa fornecer suporte de liquidez ao mercado de dívida, que vinha sofrendo forte pressão vendedora nas últimas semanas. Ao atuar como comprador desses ativos, o Tesouro força a elevação dos preços dos títulos e, consequentemente, a queda de seus rendimentos (yields), o que retira o brilho dos investimentos em renda fixa americana e favorece ativos que não pagam juros, como o ouro.
Impacto nos rendimentos e no dólar
Analistas destacam que a correlação inversa entre o ouro e os juros reais dos Estados Unidos foi o principal motor do rali. Antes da intervenção, o rendimento do Treasury de 30 anos havia atingido seu maior patamar desde 2007, gerando temores de uma crise de liquidez no sistema financeiro. Com a entrada do Tesouro na ponta compradora, o alívio nas taxas foi imediato, o que também pesou sobre o dólar. Como o ouro é precificado na moeda americana, a desvalorização do dólar torna o metal mais barato para investidores que detêm outras divisas, ampliando a demanda internacional.
De acordo com o portal InfoMoney, a operação de recompra é vista por alguns especialistas como uma tentativa de estabilizar a curva de juros sem a necessidade de uma intervenção direta do Federal Reserve (Fed). No entanto, vozes críticas no mercado, como o economista Peter Schiff, alertam que essa estratégia pode ser inflacionária a longo prazo. Schiff argumenta que, se o Tesouro precisar de financiamento do Fed para sustentar essas compras, a criação de nova moeda poderá disparar a inflação, o que historicamente serve como um combustível ainda mais potente para a valorização do ouro como reserva de valor.
Reação das instituições financeiras
Grandes bancos de investimento já começaram a ajustar suas posições diante do novo cenário. O Citi, por exemplo, indicou que a fraqueza do dólar resultante dessa política de recompras é um fator determinante para a manutenção de posições compradas em ouro. A instituição acredita que o receio de desvalorização cambial fará com que investidores abandonem estratégias baseadas na inclinação da curva de juros e busquem refúgio em commodities metálicas. A prata também acompanhou o movimento, fechando em alta de 2,79%, a US$ 65,825 por onça-troy, reforçando o sentimento otimista no setor de metais.
A decisão do Tesouro foi considerada inesperada por ocorrer apenas duas semanas após a divulgação do cronograma trimestral de recompras. Essa mudança súbita de postura sinaliza que as autoridades americanas estão vigilantes quanto à volatilidade excessiva do mercado de dívida. Conforme reportado pelo Money Times, o tamanho máximo das operações, que era de US$ 2 bilhões, passará a ser de pelo menos US$ 4 bilhões por leilão, dobrando a capacidade de intervenção estatal para garantir que o mercado de Treasuries continue funcionando de forma ordenada.
Reflexos no mercado brasileiro
O impacto da medida não ficou restrito aos Estados Unidos e aos metais. No Brasil, o Ibovespa operou em alta, beneficiado pelo alívio nos juros longos americanos, que costumam ditar o ritmo dos fluxos de capital para mercados emergentes. Com a queda dos yields nos EUA, o capital que estava estacionado em títulos seguros americanos busca rentabilidades maiores em bolsas como a brasileira. Estrategistas de ações observam que a redução do apelo do dólar e dos Treasuries é uma das principais engrenagens por trás da recuperação recente de ativos de risco no cenário doméstico.
Apesar do otimismo momentâneo, o mercado permanece cauteloso à espera da divulgação da ata da última reunião do Federal Reserve. Investidores buscam pistas sobre se o banco central americano compartilha da visão do Tesouro sobre a necessidade de intervenção ou se manterá uma postura rígida no combate à inflação. Por enquanto, o ouro reafirma sua posição como o “porto seguro” definitivo de 2026, reagindo prontamente a qualquer sinal de instabilidade monetária ou fiscal nas grandes economias globais.







