O estrategista digital argentino Fernando Cerimedo, figura central na comunicação de Javier Milei e aliado próximo da família Bolsonaro, foi preso na madrugada desta terça-feira (18) na Bolívia. A detenção ocorreu no Aeroporto Internacional Viru Viru, em Santa Cruz de la Sierra, no momento em que o consultor tentava embarcar em um voo com destino à Argentina. A ação foi coordenada pela Força Especial de Combate ao Crime (FELCC) após a emissão de um mandado de prisão preventiva.
A prisão de Cerimedo não está ligada apenas às suas atividades políticas, mas a um crime de violência grave. Ele é o principal suspeito de ter ordenado ou participado de um atentado a tiros contra sua ex-companheira, a advogada boliviana Nadia Beller. O crime ocorreu na noite de segunda-feira (17), quando dois homens em uma motocicleta dispararam contra a vítima na entrada de um edifício residencial. Beller foi atingida por três disparos e permanece hospitalizada em estado estável, segundo informações do portal G1.
De acordo com o comandante da polícia local, David Gómez, a investigação aponta para um conflito de “caráter sentimental” que teria escalado nos dias anteriores ao ataque. As autoridades bolivianas agiram rapidamente para evitar a fuga do suspeito, que já possuía conexões influentes no país. Cerimedo, além de seu histórico na Argentina, atuava recentemente como assessor do presidente boliviano Rodrigo Paz, o que conferiu contornos diplomáticos ainda mais complexos à sua detenção.
Histórico de controvérsias e atuação política
Fernando Cerimedo ganhou notoriedade internacional como o “guru digital” da campanha vitoriosa de Javier Milei à presidência da Argentina em 2023. Especialista em estratégias de redes sociais e combate narrativo, ele foi um dos arquitetos da presença agressiva de Milei na internet. No entanto, sua atuação sempre foi cercada de polêmicas envolvendo o uso de desinformação e ataques a instituições democráticas em diversos países da América Latina.
No Brasil, o nome de Cerimedo é amplamente conhecido devido ao seu envolvimento direto em questionamentos sobre a integridade do sistema eleitoral. Em 2022, ele realizou transmissões ao vivo que disseminaram dados falsos sobre as urnas eletrônicas brasileiras, o que o tornou alvo de investigações do Supremo Tribunal Federal (STF). Conforme reportado pela CNN Brasil, ele chegou a ser indiciado pela Polícia Federal em 2024 no inquérito que apura uma tentativa de golpe de Estado.
A proximidade de Cerimedo com o clã Bolsonaro é outro ponto de destaque em sua trajetória. O consultor manteve diálogos frequentes com o deputado Eduardo Bolsonaro, participando inclusive de lives onde reforçava narrativas contra o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Essa rede de influência regional permitiu que ele transitasse livremente entre as cúpulas da direita conservadora no continente, consolidando-se como um articulador de estratégias digitais transnacionais.
Implicações legais e desdobramentos
Apesar do indiciamento pela Polícia Federal brasileira, Cerimedo não havia sido denunciado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) até o momento de sua prisão na Bolívia. A investigação no Brasil focava em sua participação no “núcleo de desinformação” que visava desestabilizar o processo democrático após as eleições de 2022. O Estadão destaca que sua prisão agora coloca em xeque a rede de proteção política que o cercava.
A defesa de Fernando Cerimedo ainda não se manifestou oficialmente sobre as acusações de tentativa de homicídio na Bolívia. O governo argentino, sob a gestão de Milei, também mantém cautela, evitando comentários diretos sobre a situação jurídica de seu ex-colaborador. A expectativa é que o processo de extradição ou julgamento em solo boliviano ocorra nas próximas semanas, enquanto a polícia busca identificar os executores materiais do atentado contra Nadia Beller.
O caso reforça o isolamento de figuras que operam nas sombras da política digital sul-americana. A prisão de um estrategista desse calibre, sob acusação de um crime comum violento, pode abrir precedentes para novas investigações sobre suas atividades financeiras e políticas na região. Por ora, Cerimedo permanece sob custódia rigorosa, aguardando as definições da justiça boliviana em meio a uma forte pressão da opinião pública internacional.
A operação que resultou na captura de Cerimedo foi celebrada por ativistas de direitos humanos na Bolívia, que viam na sua presença no governo local um risco à estabilidade institucional. A complexidade do caso, unindo violência doméstica e conspirações políticas, promete manter o nome do consultor nas manchetes policiais e políticas por um longo período, desafiando as alianças que ele construiu ao longo da última década.







