A Anthropic, uma das principais concorrentes da OpenAI no setor de inteligência artificial generativa, está finalizando os preparativos para sua abertura de capital com um foco incomum na preservação de poder. Segundo informações reportadas inicialmente pelo The Information e repercutidas pelo UOL Tilt, a empresa planeja implementar uma estrutura de ações de classe dupla. Esse mecanismo concede aos fundadores, os irmãos Dario e Daniela Amodei, direitos de voto superiores aos dos acionistas comuns, blindando a diretoria original de possíveis tentativas de reestruturação por parte de investidores institucionais.
Proteção contra a volatilidade do mercado
A decisão de adotar o chamado “supervoto” não é inédita no setor de tecnologia — gigantes como Meta e Alphabet utilizam modelos similares há anos. No entanto, para a Anthropic, essa manobra possui um peso ético e filosófico distinto. Fundada por ex-membros da OpenAI que discordavam da direção comercial agressiva da antiga casa, a Anthropic se posiciona como uma “empresa de benefício público” (Public Benefit Corporation). A nova estrutura acionária serviria como uma barreira legal para garantir que o desenvolvimento de modelos de IA seguros e controlados não seja sacrificado em prol de lucros trimestrais após o IPO.
O mercado financeiro observa o movimento com cautela. De um lado, analistas do InfoMoney apontam que investidores costumam ver com ceticismo estruturas que limitam a governança democrática nas empresas, pois isso reduz o poder de fiscalização dos acionistas minoritários. De outro, a alta demanda por papéis ligados à inteligência artificial sugere que o mercado pode aceitar as condições impostas pela Anthropic devido ao imenso potencial de crescimento de seu modelo de linguagem, o Claude.
A influência das Big Techs e o papel da Amazon e Google
Um dos fatores que impulsionam a necessidade dessa blindagem é a complexa rede de investimentos que sustenta a startup. A Anthropic recebeu aportes bilionários da Amazon e do Google, que além de sócios, fornecem a infraestrutura de nuvem necessária para o treinamento de seus modelos. Essa dependência cria um cenário de risco onde, sem a proteção do voto especial, a Anthropic poderia se tornar um satélite de uma Big Tech, perdendo sua autonomia de pesquisa e desenvolvimento.
Além das ações de classe dupla, a Anthropic já conta com uma estrutura de governança inovadora conhecida como “Long-term Benefit Trust”. Trata-se de um comitê independente, formado por especialistas sem participações financeiras na empresa, que tem o poder de vetar a nomeação de membros do conselho. Ao somar o poder de voto especial dos fundadores a este conselho independente, a empresa cria uma camada dupla de proteção que a diferencia drasticamente de outras startups de tecnologia que buscam o mercado de capitais.
O desafio de equilibrar ética e rentabilidade
O IPO da Anthropic é visto como um teste ácido para o apetite dos investidores em relação a empresas que priorizam a segurança da IA em detrimento da velocidade de lançamento de produtos. A empresa defende que uma IA mal alinhada representa um risco existencial, e que o controle dos fundadores é a única forma de garantir que os protocolos de segurança não sejam ignorados sob pressão de Wall Street. Contudo, manter essa postura em uma empresa pública exige uma transparência que pode colidir com segredos comerciais estratégicos.
Ainda não há uma data oficial definida para a oferta pública, mas a estruturação dos direitos de voto sugere que a Anthropic está limpando a casa para uma estreia em 2026 ou 2027. A avaliação de mercado da startup já ultrapassa as dezenas de bilhões de dólares, e a expectativa é que ela se torne uma das listagens mais valiosas do setor tecnológico na década, rivalizando com a trajetória da Nvidia no setor de hardware.
Em última análise, a manobra dos irmãos Amodei reflete uma lição aprendida com as turbulências enfrentadas pela OpenAI no final de 2023, quando a demissão temporária de Sam Altman revelou fragilidades na governança interna. Ao consolidar o poder antes de ir a mercado, a Anthropic tenta evitar que crises externas ou disputas de conselho descarrilem sua missão original, sinalizando ao mundo que, embora queira o capital de Wall Street, não está disposta a entregar as chaves do seu motor de inovação.







