A decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras marca uma mudança drástica na política externa de Washington para a América Latina. Sob a gestão de Donald Trump, o Departamento de Estado, liderado por Marco Rubio, passou a tratar as facções brasileiras não apenas como grupos de narcotráfico, mas como ameaças diretas à segurança regional. Essa medida, que entrou em vigor em junho de 2026, permite que o governo americano utilize ferramentas de contraterrorismo para combater as atividades transnacionais desses grupos.
De acordo com informações publicadas pelo G1, a avaliação americana é que o PCC e o CV representam riscos significativos devido ao seu envolvimento com violência extrema e crimes que ultrapassam as fronteiras brasileiras. A designação como “Terroristas Globais Especialmente Designados” coloca as facções no mesmo patamar jurídico de grupos como o Hezbollah e a Al-Qaeda, ampliando o alcance operacional das agências de inteligência dos EUA em solo estrangeiro.
O governo brasileiro, por meio do Ministério das Relações Exteriores, manifestou profunda preocupação com a medida. O chanceler Mauro Vieira manteve conversas frequentes com o secretário Marco Rubio na tentativa de evitar ou adiar a classificação. O argumento central de Brasília é que o enquadramento como terrorismo ignora a natureza econômica das facções, que no Brasil são tratadas sob a Lei de Organizações Criminosas, e não sob a Lei Antiterrorismo, que exige motivações ideológicas ou políticas.
Segundo a BBC News Brasil, o Palácio do Planalto teme que a nova classificação abra precedentes para intervenções externas e fira a soberania nacional. A preocupação é que o combate ao crime organizado deixe de ser uma questão de segurança pública e cooperação policial para se tornar uma questão de segurança nacional sob a ótica militar americana. Isso poderia resultar em operações de inteligência ou até ações diretas sem a devida coordenação com as autoridades brasileiras.
Impactos diplomáticos e a reação do governo brasileiro
A tensão diplomática escalou à medida que parlamentares da oposição no Brasil celebraram a decisão de Trump. O senador Flávio Bolsonaro, em visita à Casa Branca, defendeu abertamente a medida, afirmando que as facções controlam territórios e submetem populações a leis paralelas, o que justificaria o rótulo de terrorismo. Essa divergência interna no Brasil complica a posição do governo Lula, que tenta manter uma postura de autonomia nas políticas de segurança.
Especialistas em relações internacionais apontam que a classificação pode ser usada como instrumento de pressão política. Ao designar grupos que operam em território brasileiro como terroristas, os EUA ganham alavancagem para exigir mudanças nas políticas de segurança do Brasil. Caso Washington considere que o governo brasileiro não está sendo “cooperativo” o suficiente no combate a esses grupos, sanções econômicas severas podem ser aplicadas contra o país.
Além disso, a medida impacta diretamente a cooperação jurídica internacional. Com o novo status, qualquer transação financeira que envolva, mesmo que indiretamente, ativos ligados ao PCC ou ao CV pode ser bloqueada pelo sistema financeiro americano. Isso cria um ambiente de incerteza para empresas multinacionais que operam no Brasil, que agora precisam reforçar seus protocolos de compliance para evitar sanções secundárias do Departamento do Tesouro dos EUA.
O que muda na prática com a nova classificação americana
Na prática, a designação permite o congelamento imediato de bens e ativos financeiros de qualquer indivíduo ou entidade ligada às facções que estejam sob jurisdição americana. Conforme detalhado pela CNN Brasil, a medida também proíbe que cidadãos e empresas dos EUA forneçam qualquer tipo de suporte material, incluindo serviços financeiros, treinamento ou assistência técnica, aos grupos designados.
Outro ponto crítico é a mudança na doutrina de segurança. Enquanto o narcotráfico é combatido com foco na apreensão de drogas e prisão de lideranças, o terrorismo é enfrentado com foco na neutralização da rede como um todo. Isso inclui o uso de tecnologias de vigilância em massa e a possibilidade de extradições simplificadas. Investigadores brasileiros, como o promotor Lincoln Gakiya, alertam que, embora a ajuda internacional seja bem-vinda, a militarização do problema pode trazer danos colaterais à população civil.
O cenário futuro das relações entre Brasil e Estados Unidos dependerá de como o governo Lula conseguirá equilibrar a necessidade de cooperação no combate ao crime transnacional com a defesa da soberania. A expectativa é que o tema seja o ponto central de um encontro bilateral entre Lula e Trump, onde o Brasil buscará reafirmar que o controle das facções é uma responsabilidade soberana, enquanto os EUA manterão a pressão por resultados mais agressivos contra o crime organizado na região.







