A Anthropic, uma das principais concorrentes da OpenAI no setor de inteligência artificial generativa, está finalizando os preparativos para uma das aberturas de capital mais aguardadas do Vale do Silício. Segundo informações de bastidores, a empresa planeja implementar uma estrutura de ações de classe múltipla que concederá ao CEO Dario Amodei e aos demais cofundadores um poder de voto desproporcional às suas participações acionárias. Essa manobra é vista como um passo fundamental para garantir a estabilidade da liderança em um momento de transição para o escrutínio público.
De acordo com reportagem do UOL Tilt, essa estratégia visa criar um escudo protetor para a liderança da startup. Atualmente, os fundadores da criadora do chatbot Claude detêm fatias relativamente pequenas do capital social, o que os deixaria vulneráveis a investidores ativistas ou pressões por lucros imediatos após a listagem na bolsa de valores. O objetivo é evitar que a busca por resultados trimestrais comprometa a visão de longo prazo da companhia.
A estratégia não é inédita no setor tecnológico, mas ganha contornos críticos no contexto da inteligência artificial. A Anthropic foi fundada com a premissa de priorizar a segurança e a ética no desenvolvimento de modelos de linguagem, operando sob a estrutura de uma Corporação de Benefício Público (PBC). O mecanismo de “supervoto” assegura que essa missão original não seja diluída pela volatilidade do mercado público, mantendo o controle decisório nas mãos daqueles que estabeleceram os princípios de segurança da empresa.
Governança e o papel dos curadores
Além das ações especiais para os fundadores, a Anthropic pretende manter seu conselho de curadores não acionistas. Este grupo, que não possui interesses financeiros diretos na valorização dos papéis, terá o poder de eleger a maioria dos membros do conselho de administração. Essa camada extra de governança é vista como um diferencial competitivo e ético em relação aos seus pares, reforçando o compromisso da empresa com o desenvolvimento responsável da IA.
Conforme detalhado pelo Valor Econômico, o IPO da Anthropic pode ocorrer já no final de setembro de 2026. Analistas de mercado especulam que esta oferta pública inicial tem potencial para ser uma das maiores da história, consolidando a empresa como um pilar fundamental da infraestrutura tecnológica global. A expectativa em torno da abertura de capital reflete o apetite voraz dos investidores por ativos ligados à inteligência artificial generativa.
A preparação para a abertura de capital ocorre em um momento de crescimento explosivo para a startup. A empresa teria registrado uma taxa anual de receita próxima a US$ 65 bilhões, impulsionada pela adoção corporativa massiva do modelo Claude. Esse desempenho financeiro robusto é o que sustenta as avaliações que orbitam a marca de US$ 1 trilhão, colocando a Anthropic em um patamar de elite no cenário tecnológico mundial.
O peso do IPO trilionário
Em junho de 2026, a Folha de S.Paulo reportou que a startup já havia protocolado documentos confidenciais para a oferta. Na época, uma rodada de financiamento privado avaliou a companhia em cerca de US$ 900 bilhões, atraindo o interesse de gigantes bancários como Goldman Sachs, JPMorgan e Morgan Stanley para coordenar a operação. A entrada desses bancos reforça a seriedade e a escala da transação planejada.
A decisão de adotar o voto plural coloca a Anthropic ao lado de gigantes como a Meta e a Alphabet. Mark Zuckerberg, por exemplo, utiliza uma estrutura semelhante para manter o controle absoluto sobre as decisões estratégicas do Facebook desde 2012. No entanto, para a Anthropic, o foco não é apenas o controle comercial, mas a salvaguarda contra riscos existenciais da IA, garantindo que a segurança nunca seja sacrificada em prol da expansão agressiva.
Investidores institucionais costumam olhar com cautela para estruturas de classe dupla, pois elas limitam a influência dos acionistas minoritários. Contudo, no caso da Anthropic, a percepção de que a estabilidade da liderança é essencial para a segurança tecnológica parece estar prevalecendo entre os grandes fundos de capital de risco. A confiança na equipe liderada por Dario Amodei tem sido um fator determinante para a manutenção dessa estrutura de governança incomum.
Desafios e expectativas do mercado
O sucesso dessa estrutura dependerá da capacidade da Anthropic em equilibrar a entrega de resultados financeiros com a manutenção de seus rigorosos protocolos de segurança. O mercado financeiro tradicional, muitas vezes focado em metas de curto prazo, terá que se adaptar a uma empresa que possui mecanismos formais para priorizar a integridade ética. Esse equilíbrio será o grande teste para a empresa após a sua estreia na Nasdaq ou na NYSE.
Com a proximidade de setembro, a expectativa é que mais detalhes sobre a distribuição exata do poder de voto venham a público através do formulário S-1. O que se sabe até agora é que a Anthropic está redefinindo o manual de governança corporativa para a era da inteligência artificial, tentando provar que é possível ser uma potência trilionária sem abdicar de princípios fundacionais. O mercado aguarda ansiosamente para ver como essa filosofia será recebida pelos investidores de varejo.
Por fim, o movimento da Anthropic serve como um sinal para outras startups do setor, como a própria OpenAI, que ainda opera sob uma estrutura híbrida complexa. A transição bem-sucedida para o mercado público com controle mantido pelos fundadores pode estabelecer o novo padrão ouro para as empresas que lideram a fronteira da tecnologia no século XXI, unindo capital massivo e responsabilidade social.







