Home / Mundo / Estrategista de Javier Milei e aliado do clã Bolsonaro, Fernando Cerimedo é detido na Bolívia

Estrategista de Javier Milei e aliado do clã Bolsonaro, Fernando Cerimedo é detido na Bolívia

Prisão no aeroporto e o atentado contra Nadia Beller

A detenção ocorreu no momento em que Cerimedo tentava embarcar em um voo com destino a Buenos Aires. A polícia boliviana agiu com base em investigações que o apontam como suposto mandante de um ataque a tiros contra a advogada e analista política Nadia Beller, ocorrido na noite anterior. Beller foi atingida por três disparos na porta de um hotel por dois homens disfarçados de entregadores de comida. Segundo informações divulgadas pelo portal G1, a vítima sobreviveu após fingir-se de morta e, posteriormente, acusou Cerimedo abertamente em depoimentos à imprensa local.

O comandante da Força Especial de Combate ao Crime (FELCC), David Gómez, confirmou que a principal linha de investigação sugere um crime motivado por questões sentimentais e conflitos patrimoniais. Durante as buscas, foram relatadas denúncias de que o consultor operaria uma estrutura paralela de inteligência no país. A defesa de Cerimedo, por meio de seus advogados, nega qualquer envolvimento no crime e classifica a prisão como uma “perseguição política” orquestrada por setores opositores ao governo boliviano, onde ele atuava como assessor informal.

O “guru” digital da direita latino-americana

Fernando Cerimedo consolidou sua reputação como um estrategista agressivo no ambiente digital. Fundador do portal “La Derecha Diario”, ele ganhou projeção internacional ao coordenar a estratégia de redes sociais de Javier Milei durante a vitoriosa campanha presidencial na Argentina em 2023. Sua atuação baseia-se na mobilização de bases digitais, uso de algoritmos para segmentação de conteúdo e uma retórica de confronto direto com instituições tradicionais e veículos de imprensa.

Na Bolívia, Cerimedo mantinha vínculos com o entorno do presidente Rodrigo Paz, o que gerou críticas acentuadas de figuras como o ex-presidente Evo Morales. Morales utilizou suas redes sociais para exigir uma investigação profunda sobre a presença do argentino no país, sugerindo que Cerimedo chefiava um grupo de elite sem supervisão institucional capaz de realizar operações de desestabilização e intimidação contra opositores da região de Chapare.

Conexões brasileiras e investigação no STF

Para além das fronteiras bolivianas e argentinas, Cerimedo é uma figura central em inquéritos que tramitam no Supremo Tribunal Federal (STF) do Brasil. O consultor foi indiciado pela Polícia Federal brasileira no âmbito da Operação Tempus Veritatis, que apura a tentativa de golpe de Estado e a abolição do Estado Democrático de Direito após as eleições de 2022. Os investigadores apontam que ele integrou o “Núcleo de Desinformação”, responsável por ataques orquestrados às urnas eletrônicas e ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

De acordo com reportagens do Estadão, a PF reuniu evidências de que Cerimedo se reuniu com assessores próximos ao ex-presidente Jair Bolsonaro e militares brasileiros para formular narrativas de fraude eleitoral. Em novembro de 2022, ele protagonizou uma transmissão ao vivo com dados falsos sobre o sistema de votação brasileiro que alcançou centenas de milhares de espectadores, servindo de combustível para as manifestações que culminaram nos atos golpistas de 8 de janeiro.

A aliança com o clã Bolsonaro

A proximidade de Cerimedo com a família Bolsonaro, especialmente o deputado Eduardo Bolsonaro, é documentada por registros de reuniões em Buenos Aires e participações conjuntas em eventos políticos da ultradireita internacional. O estrategista argentino é visto como o elo que unificou as táticas de comunicação digital entre as campanhas de Bolsonaro e Milei, compartilhando métodos de guerrilha digital e gestão de crises reputacionais em tempo real.

Embora Cerimedo tenha tentado se distanciar formalmente da “trama golpista” no Brasil ao afirmar que apenas prestava consultoria técnica, o STF impôs diversas restrições a ele, incluindo o bloqueio de contas em redes sociais em território brasileiro. A detenção na Bolívia reacende o interesse das autoridades brasileiras, que acompanham se as atividades irregulares alegadas pelas autoridades bolivianas guardam relação com a rede transnacional de desinformação investigada pela Polícia Federal.

Desafios diplomáticos e futuro jurídico

A prisão de Cerimedo cria um incidente diplomático delicado na região. Enquanto o governo de Javier Milei mantém um silêncio cauteloso, a oposição argentina pressiona por esclarecimentos sobre o uso de recursos públicos e a natureza das atividades de Cerimedo no exterior. Na Bolívia, o processo deve seguir para a fase de instrução, onde as evidências balísticas e os depoimentos de testemunhas do hotel serão confrontados com o álibi do consultor.

O caso também levanta discussões sobre a regulamentação do marketing político digital e a responsabilidade de consultores estrangeiros em processos democráticos nacionais. Especialistas em direito internacional apontam que, se comprovado o envolvimento no atentado em Santa Cruz de la Sierra, Cerimedo poderá enfrentar uma pena severa na Bolívia, o que dificultaria qualquer eventual processo de extradição solicitado pelo Brasil para que ele responda pelos crimes de desinformação e ataques ao Estado Democrático de Direito.

Neste momento, Fernando Cerimedo permanece sob custódia na Unidade de Força Especial de Combate ao Crime, aguardando uma audiência de medidas cautelares. O desfecho deste caso é monitorado de perto por governos e organismos de direitos humanos, dado o perfil influente do detido na arquitetura política da direita contemporânea sul-americana e as graves implicações de suas ações para a estabilidade democrática e a segurança pública na região.

Marcado:

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *