O Ministério da Fazenda assumiu um papel central na tentativa de solucionar o impasse fiscal do estado do Rio de Janeiro. Em uma movimentação estratégica, a pasta iniciou uma mediação direta entre o governo fluminense e os dois maiores credores públicos do estado: o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e o Banco do Brasil. O objetivo é reestruturar um passivo bancário estimado em R$ 26 bilhões, buscando condições de pagamento que não asfixiem a prestação de serviços essenciais à população.
Articulação em Brasília
A negociação ganhou tração após reuniões em Brasília entre o ministro da Fazenda, Dario Durigan, e o governador em exercício do Rio de Janeiro, Ricardo Couto. O governo estadual pleiteia um reescalonamento dos débitos com a aplicação de juros menores, argumentando que o custo atual das dívidas bancárias compromete severamente a capacidade de investimento. Segundo o Valor Econômico, a União vê a iniciativa de forma positiva, uma vez que a reestruturação pode evitar novos colapsos financeiros no estado.
O ministro Dario Durigan confirmou que entrará em contato direto com a presidente do Banco do Brasil, Tarciana Medeiros, e com o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante. A ideia é avaliar a margem de manobra que essas instituições possuem para flexibilizar os contratos vigentes. Durigan ressaltou que a mediação visa entender o espaço técnico para a negociação, reforçando que, se houver viabilidade jurídica e financeira, o governo federal dará o suporte necessário para concretizar o acordo.
Transição de Regimes Fiscais
Esta nova frente de negociação ocorre em um momento de transição para o Rio de Janeiro. O estado formalizou recentemente sua saída do Regime de Recuperação Fiscal (RRF), modelo adotado em 2017 que impunha restrições severas aos gastos públicos, para aderir ao Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag). Conforme reportado pelo O Globo, o Propag oferece regras mais flexíveis e permite que parte dos juros da dívida com a União seja convertida em investimentos sociais.
A dívida total do Rio de Janeiro é monumental, alcançando a cifra de R$ 225 bilhões, dos quais R$ 193 bilhões são devidos diretamente à União. Os R$ 26 bilhões em negociação com o BNDES e o Banco do Brasil representam a parcela contratada com o sistema financeiro. A reestruturação desse montante é vista como o “segundo passo” necessário para que o estado recupere sua saúde financeira plena, complementando os benefícios já obtidos com a entrada no Propag.
Impacto nas Contas Públicas
De acordo com as projeções do governo federal, a adesão ao novo programa de pagamentos e a renegociação bancária podem gerar uma economia imediata de R$ 3,1 bilhões para os cofres fluminenses ainda em 2026. Esse alívio no fluxo de caixa é considerado vital para que o estado consiga honrar compromissos com servidores e manter o funcionamento de hospitais e escolas. O governador Ricardo Couto afirmou que a meta é entregar a gestão ao próximo governo com as contas equilibradas e superavitárias.
Um ponto crucial da negociação é que a reestruturação não deve exigir novas garantias do Tesouro Nacional. Como os débitos atuais já possuem a cobertura da União, a operação consistiria basicamente na substituição de contratos antigos por novos, com taxas de juros mais baixas e prazos alongados. Segundo informações publicadas pelo Jornale, a ausência de necessidade de novas garantias facilita o trâmite burocrático dentro do Ministério da Fazenda.
Contrapartidas e Investimentos
Em troca da flexibilização das dívidas, o Rio de Janeiro se compromete a direcionar recursos para áreas estratégicas. O modelo do Propag exige que os estados beneficiados apliquem percentuais específicos em educação, infraestrutura e segurança pública. Essa condicionalidade visa garantir que o alívio financeiro não seja consumido apenas por despesas correntes, mas que resulte em melhorias estruturais para a sociedade fluminense.
A mediação da Fazenda também serve como um sinal político de cooperação federativa. O governo federal tem demonstrado interesse em evitar que a crise fiscal do Rio de Janeiro se transforme em uma crise social de grandes proporções, dada a importância econômica do estado para o PIB brasileiro. A participação ativa de Durigan na interlocução com os bancos públicos reforça essa diretriz de apoio institucional.
Desafios e Perspectivas
Apesar do otimismo, o caminho para a assinatura dos novos contratos ainda exige cautela. As instituições financeiras precisam assegurar que a renegociação não fira normas de governança bancária ou prejudique seus balanços. O BNDES, em particular, possui regras rígidas para a reestruturação de ativos, o que demandará uma análise técnica minuciosa das garantias oferecidas pelo estado.
Especialistas em contas públicas apontam que, embora a renegociação seja um passo fundamental, a sustentabilidade de longo prazo do Rio de Janeiro dependerá de reformas estruturais contínuas. A dependência das receitas de petróleo e a volatilidade econômica são fatores de risco que permanecem no radar, exigindo uma gestão fiscal rigorosa mesmo após o sucesso das negociações com os bancos federais.
Por fim, o desfecho desta mediação servirá de termômetro para outros estados brasileiros que enfrentam situações fiscais semelhantes. Minas Gerais e Rio Grande do Sul acompanham de perto os desdobramentos no Rio, esperando que o modelo de mediação direta da Fazenda com bancos públicos possa ser replicado para aliviar suas próprias pressões de endividamento, consolidando uma nova forma de gestão da dívida subnacional no Brasil.







