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Morre Glória Menezes, a eterna “primeira-dama” da teledramaturgia brasileira, aos 91 anos

A atriz Glória Menezes, um dos maiores ícones da história das artes no Brasil, faleceu nesta terça-feira, 18 de agosto, aos 91 anos, em sua residência no Rio de Janeiro. Segundo informações confirmadas por sua assessoria de imprensa e familiares, a artista partiu de causas naturais, deixando um vazio irreparável na cultura nacional e um legado que atravessa seis décadas de atuações memoráveis no teatro, no cinema e na televisão.

Nascida Nilcedes Soares de Magalhães em Pelotas, no Rio Grande do Sul, a atriz adotou o nome artístico de Glória Menezes ainda no início de sua trajetória, escolhendo um nome que, segundo ela, seria fácil de pronunciar em qualquer idioma e lhe traria sorte. O sucesso foi imediato. Após estrear no teatro amador e passar pela Escola de Arte Dramática da USP, Glória iniciou sua jornada na televisão na extinta TV Tupi, em 1959, antes de se tornar a face mais reconhecida da Rede Globo por mais de 50 anos.

Uma trajetória de pioneirismo e grandes papéis

Glória Menezes foi protagonista da primeira novela diária da televisão brasileira, 2-5499 Ocupado (1963), na TV Excelsior, onde contracenou pela primeira vez com aquele que seria seu parceiro de vida e de cena, Tarcísio Meira. A química entre os dois transcendeu as telas, consolidando-os como o “casal real” da TV brasileira. Ao longo de sua carreira na Globo, iniciada em 1967 com Sangue e Areia, ela deu vida a personagens que moram no imaginário popular, como a destemida Ana Preta de Pai Herói e a sofisticada Roberta Leone de Guerra dos Sexos.

No cinema, a atriz também alcançou o topo do reconhecimento internacional ao integrar o elenco de O Pagador de Promessas (1962). O filme, dirigido por Anselmo Duarte, é até hoje a única produção brasileira a conquistar a prestigiosa Palma de Ouro no Festival de Cannes. Sua interpretação sensível contribuiu para elevar o patamar do cinema nacional em uma época de grandes transformações estéticas e políticas no país.

A vilã inesquecível e a sensibilidade social

Um dos momentos mais marcantes de sua carreira ocorreu em 1990, quando interpretou a icônica vilã Laurinha Figueroa em Rainha da Sucata. A personagem, uma aristocrata decadente e manipuladora, protagonizou um dos finais mais chocantes da teledramaturgia ao cometer suicídio para incriminar sua rival. Anos mais tarde, em Senhora do Destino (2004), Glória demonstrou sua versatilidade ao interpretar a Baronesa de Bonsucesso, uma personagem que enfrentava os estágios iniciais do Alzheimer, trazendo visibilidade e humanidade a um tema socialmente sensível.

A dedicação de Glória ao ofício era reconhecida por colegas e críticos. Segundo o portal UOL, a atriz era admirada por seu rigor profissional e pela capacidade de transitar entre o drama profundo e a comédia leve com a mesma maestria. Ela recebeu inúmeras premiações, incluindo o Troféu Imprensa, o Prêmio APCA e a homenagem especial do Troféu Mário Lago, pelo conjunto de sua obra dedicada ao entretenimento e à arte.

Parceria eterna com Tarcísio Meira

É impossível falar de Glória Menezes sem mencionar Tarcísio Meira, falecido em 2021. Casados por 59 anos, eles formaram a união mais sólida e admirada do meio artístico brasileiro. Juntos, não apenas estrelaram dezenas de sucessos, como a série Tarcísio & Glória (1988), mas também criaram uma família dedicada às artes, incluindo o filho Tarcísio Filho. Após a perda do marido, Glória manteve uma vida discreta, cercada pelo afeto dos filhos, netos e bisnetos em sua fazenda e, posteriormente, em seu apartamento no Rio.

A morte de Glória Menezes ocorre em um dia de luto dobrado para a cultura nacional, coincidindo com a partida de outra gigante da atuação, Laura Cardoso, que faleceu poucas horas antes aos 98 anos. A coincidência trágica gerou uma onda de homenagens nas redes sociais e em canais de televisão. O presidente da República decretou luto oficial de três dias em reconhecimento à importância das duas atrizes para a formação da identidade cultural brasileira.

O adeus a uma dama da dramaturgia

Artistas de diversas gerações manifestaram seu pesar. Em nota, a direção da TV Globo destacou que Glória “ajudou a escrever cada capítulo da história da televisão no Brasil”, sendo uma referência de ética e talento para todos que vieram depois. O site Poder360 ressaltou a comoção nacional, observando que o público brasileiro sente a perda de Glória como a de um ente querido, tamanha era sua presença cotidiana nos lares através das novelas.

A atriz deixa três filhos: João Paulo Brito e Maria Amélia Brito, frutos de seu primeiro casamento, e Tarcísio Filho, de sua união com Tarcísio Meira. O velório e o sepultamento serão restritos à família e amigos próximos, atendendo a um desejo de privacidade que a atriz manteve em seus últimos anos. O Brasil se despede de sua “primeira-dama”, mas sua voz e seu olhar expressivo permanecerão eternizados nos arquivos da arte dramática mundial.

https://www.youtube.com/watch?v=R9K-M_8qK20
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