A forma como nos comunicamos no ambiente digital está em constante metamorfose, e os emojis, que antes eram apenas complementos visuais, hoje ocupam o centro da linguagem contemporânea. Um recente levantamento do Google revelou que o emoji de “rosto chorando intensamente” (😭) assumiu o posto de ícone mais utilizado globalmente em 2025. O dado, extraído de uma amostra massiva de 665 milhões de interações via teclado Gboard, reflete não apenas uma preferência estética, mas uma mudança profunda na semântica digital, especialmente entre os usuários mais jovens.
Historicamente, o emoji 😭 era associado a sentimentos de tristeza profunda ou lamento. No entanto, a Geração Z ressignificou o símbolo, transformando-o em uma ferramenta multifuncional para expressar desde gargalhadas incontroláveis até situações de extremo constrangimento ou emoção positiva. Essa plasticidade no significado é o que impulsionou sua ascensão ao topo, desbancando favoritos de longa data como o “chorando de rir” (😂), que passou a ser visto por muitos adolescentes como datado ou excessivamente utilizado por gerações anteriores.
Especialistas em linguística digital apontam que essa transição é liderada principalmente por mulheres jovens, que tendem a ser as pioneiras na adoção de novos códigos sociais e vocabulários emocionais. A busca por uma comunicação que pareça mais autêntica e menos “massificada” faz com que grupos menores criem seus próprios dialetos visuais. O uso do 😭 como substituto para a risada é um exemplo clássico de como a ironia e a intensidade emocional se fundem na internet moderna, onde o exagero visual serve para validar a sinceridade do sentimento.
Além do líder do ranking, outros símbolos demonstram essa dança geracional. O emoji de caveira (💀), por exemplo, tornou-se um sinônimo comum para “morri de rir”, enquanto a flor murcha (🥀) tem sido preferida em detrimento do coração partido tradicional em contextos de melancolia estética. Esses movimentos mostram que a frequência de uso de determinados ícones está intrinsecamente ligada à identidade de grupo e à necessidade de diferenciação cultural dentro das redes sociais.
A ressignificação dos símbolos e o choque geracional
O fenômeno da “ressignificação” não é exclusivo do emoji de choro. O levantamento indica que a comunicação digital está se tornando cada vez mais fragmentada em nichos. Enquanto usuários mais velhos utilizam as redes sociais para transmissões mais amplas e literais, os jovens priorizam conversas privadas e comunidades fechadas, onde o contexto é tudo. Nesse cenário, um emoji pode ter um significado completamente diferente dependendo do grupo em que é compartilhado, funcionando como uma espécie de “aperto de mão secreto” digital.
O termo “cringe”, que ganhou popularidade nos últimos anos, exemplifica bem esse conflito. Para a Geração Z, utilizar o emoji 😂 de forma literal pode ser considerado um sinal de falta de sintonia com as tendências atuais. Essa pressão social invisível molda o ranking completo das figurinhas mais enviadas, forçando uma renovação constante do catálogo de reações que consideramos aceitáveis ou “descoladas” em aplicativos de mensagens como o WhatsApp e o Telegram.
Outro ponto relevante destacado pelos dados do Google é a estabilidade dos dez primeiros colocados. Apesar da vasta biblioteca de mais de 3.600 emojis disponíveis, o “Top 10” concentra cerca de 36% de todo o volume de mensagens enviadas. Isso sugere que, embora existam milhares de nuances possíveis, a humanidade tende a gravitar em torno de um conjunto limitado de emoções básicas — alegria, amor, tristeza e gratidão — mesmo que a forma visual de expressá-las mude drasticamente entre as décadas.
A análise do The New York Times sobre esses dados reforça que a inovação linguística muitas vezes surge de comunidades marginalizadas ou subculturas, como os grupos LGBTQIAP+ e comunidades negras, que utilizam a tecnologia para criar novas formas de expressão. Esses novos usos acabam sendo absorvidos pelo mainstream, alterando a percepção global sobre o que um simples desenho de um rosto chorando pode representar em uma tela de celular.
O ranking dos 10 emojis mais usados em 2025
De acordo com os dados consolidados, a lista dos favoritos globais mostra uma predominância de expressões faciais e corações. Em primeiro lugar, o 😭 (rosto chorando intensamente), seguido de perto pelo 🤣 (rolando no chão de rir) e pelo 😂 (lágrimas de alegria). O coração vermelho (❤️) mantém sua posição de destaque como o símbolo universal do afeto, enquanto as mãos unidas (🙏) continuam sendo amplamente utilizadas para expressar gratidão, fé ou pedidos, demonstrando a perenidade de certos sentimentos humanos.
Completando o ranking, aparecem o rosto mandando beijo (😘), o rosto sorridente com corações (🥰), o rosto com olhos de coração (😍), o sinal de positivo (👍) e o rosto sorridente simples (😊). Embora a ordem possa variar levemente de um ano para outro, a presença desses ícones confirma que a comunicação digital, apesar de suas complexidades e gírias visuais, ainda busca, em sua essência, estabelecer conexões emocionais rápidas e eficazes entre pessoas de diferentes culturas e idiomas.
Em última análise, a liderança do emoji 😭 sinaliza uma era de maior vulnerabilidade e expressividade dramática. Seja para rir de uma piada interna ou para demonstrar apoio em um momento difícil, o “choro” digital tornou-se a moeda de troca mais valiosa da internet. Entender essas nuances é fundamental para qualquer pessoa que deseje navegar com fluidez no mar de informações e interações que definem a sociedade conectada do século XXI.







